"Quando olho pro céu fico pensando como Deus fez tudo isso. Puxa vida!”. Imagine esta frase pronunciada pela voz de um jovem senhor de 96 anos de idade. As palavras nesta frase revelam a sabedoria, sensibilidade e contemplação poética de João Laurentino da Silva, carinhosamente chamado de mestre Laurentino.
Ao pesquisarmos no dicionário o significado de Laurentino, é possível encontrar a etimologia da palavra derivada do latim Laurentius, que se refere ao láureo, o mesmo que “a loiros; feito de loiros”. Uma curiosa coincidência para o mestre Laurentino, compositor da obra musical “Lourinha Americana” que o consagrou como mestre Laurentino.
"Essa lourinha americana está querendo me esculachar. Foi dizendo que eu sou neguinho, e bem neguinho. E lá na América eu não posso entrar". É assim que inicia o grande sucesso "Lourinha Americana", uma composição da década de 80, do mestre Laurentino, o roqueiro mais antigo do Brasil. Por que o roqueiro mais antigo do Brasil?
Precisamente no dia 4 de abril de 1998, em Belém, no famoso festival paraense de rock da época, a quarta edição do Rock 6 Horas, no complexo do Mercado de São Brás, se encontravam diversos jovens roqueiros, mas no meio daquele público estava Laurentino, no auge dos seus 72 anos de idade, com uma vestimenta impecável, cheio de anéis e a sua gaita inseparável.
No dia do evento musical, o senhor estiloso chegou até o organizador do evento, o empresário e produtor cultural, Natalício Figueiredo, conhecido no ramo cultural como Ná Figueiredo, e disse que gostaria de tocar no festival de rock (Ná Figueiredo já conhecia Laurentino desde a década de 80, observando ele tocar gaita pela cidade).
Ao escutar o pedido de Laurentino, o produtor cultural conversou com a banda Mangabenzo que seria a próxima a ser apresentar, os integrantes toparam e o levaram para o palco do festival de rock.
"O Laurentino tocou uma música, Loirinha Americana. Foi uma loucura. A plateia veio em cima. Ele é muito showman", lembrou Ná Figueiredo sobre o início do mestre Laurentino na cena cultural da capital paraense.
A partir desse evento, a banda Mangabenzo acolheu e acompanhou alguns shows do mestre Laurentino.
Coletivo Rádio Cipó e mestre Laurentino - O Coletivo Rádio Cipó surgiu a partir dos integrantes do Mangabenzo. Era um núcleo de produção de mídia sonora, responsável por gravar e registrar músicos da cena popular utilizando a música eletrônica. O coletivo reuniu vários mestres, cantores e cantoras do Pará.
"Com mestre (Laurentino) gravamos o disco ‘Formigando na Calçada do Brasil’, em 2005, com várias músicas dele e da dona Onete. E a gente rodou o Brasil divulgando esse trabalho feito no território da Pedreira (bairro) com gravações caseiras e utilizando a música eletrônica com a Web 2.0, que permitia o compartilhamento de arquivos. Com essas gravações fomos ouvidos lá fora e chegamos até na Europa", contou o jornalista e músico Ruy Montalvão, que, nos anos 2000, fez parte do Coletivo Rádio Cipó.
O autor de Lourinha Americana
Mestre Laurentino nasceu em 1° de janeiro de 1926, em Ponta de Pedras, na ilha do Marajó, e foi criado em Belém pelo jurista Francisco da Costa Palmeira. Aos 18 anos, mestre Laurentino comprou a primeira gaita que o acompanhou durante a juventude e a vida adulta nas profissões de boxeador, ajudante de pedreiro e mecânico de aviação.
Neste 1° de janeiro de 2022, João Laurentino esbanja alegria, sabedoria e gingado ao completar 96 anos. Idade é só um detalhe perto do vigor reluzente de Laurentino. A coleção de roupas cintilantes coloridas e alegres em paetês, é um show à parte.
A canção Lourinha Americana chegou a ser regravada por grandes nomes da música brasileira, como o cantor Gilberto Gil e Mundo Livre S/A. Laurentino sente orgulho da trajetória."Minha música foi gravada por diversas pessoas", lembrou o mestre.
"Laurentino e os Cascudos" foi o primeiro CD do mestre Laurentino, gravado em 2014, produzido pelo Na Music, do produtor cultural Ná Figueiredo. Disco que reúne, além de Lourinha Americana, sucessos como São Paulo, Monte Castelo e Nega Misampli. Esta última ganhou um vídeoclipe lançado no último dia 15 de dezembro, onde o mestre Laurentino aparece no Ver-o-Peso esbanjando simpatia com figurino singular.
Para comemorar os 96 anos de história mestre Laurentino, com a música Terra dos Bandeirantes, participará do novo álbum do grupo Metaleiras da Amazônia, que será lançado no final deste mês.
Relação paternal
Mestre Laurentino teve 27 filhos. Atualmente ele reside com a filha Greyce dos Santos Corrêa, 38, e a ex-companheira Leonice Carvalho, com quem teve, além de Greyce, mais dois filhos, falecidos em 2015 e 2016.
Com o esquema vacinal completo contra a covid-19, aos 96 anos Laurentino continua esbanjando fôlego para tocar a harmônica de boca (a gaita) e dançar a coreografia peculiar que marca a sagacidade do compositor paraense.
Cheio de energia ele conta que tem muitos sonhos para realizar, mas um sonho Laurentino não deixou de citar "olha, eu tô com vontade de arranjar uma gravadora... pra gravar um disco pra vocês escutarem".
O baixista e produtor cultural, Carlos Maciel Gomes, 60, conhecido no meio artístico como MG Calibre, é responsável por produzir eventos e gerenciar as lives do mestre Laurentino. Calibre tem uma relação paternal com mestre há mais de 20 anos.
"Resumo que é algo celestial, o mestre me emociona muito, a sua história, o jeito dele ser e o carinho imenso que ele tem por mim. (...) desde a primeira vez que a gente se conheceu, não nos largamos mais. Hoje em dia o tenho como minha família", revelou.
"Laurentino representa a diversidade que Belém tem. Lembro de Laurentino indo de bicicleta em casa para conversarmos. Uma época muito boa. E é muito bom ver que um dos maiores nomes da música paraense está aqui cantando, dançando e tocando sua gaita, que alegria. Parabéns, Laurentino", disse o prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues.
A música para o mestre. Para um mestre, uma música
Apesar de ter o título de roqueiro mais antigo do Brasil, mestre Laurentino ressalta que os todos os gêneros musicais são dignos de contemplação. "A música sendo bonita, eu gosto", expôs.
A celebração dos 96 anos de vida do mestre Laurentino pode ser resumida no poema do artista pernambucano, Tunga (1952-2016). "O que a arte tenta fazer é tornar a vida um pouco mais intensa, divertida e cheia de sentido. Então dar sentindo às coisas, eu acho que é a atividade central de um poeta ou de um artista, e eu acho que o convite que toda a arte faz é dizer 'você também pode fazer, você também é artista'".