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Matriarca quilombola guarda saberes populares da floresta e rico antepassado cultural e familiar

Foto: Agência Distrital de Mosqueiro
Matriarca quilombola guarda saberes populares da floresta e rico antepassado cultural e familiar
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Matriarca quilombola guarda saberes populares da floresta e rico antepassado cultural e familiar
Matriarca quilombola guarda saberes populares da floresta e rico antepassado cultural e familiar

Creuza Gomes Chaves, a Tia Querida do Sucurijuquara

Em 8 de agosto de 1919, nascia no vilarejo de Sucurijuquara, em Mosqueiro, Creuza Gomes Chaves ou simplesmente “Querida” como é conhecida a matriarca da única comunidade quilombola do município de Belém. De personalidade extrovertida e bastante amorosa com seus familiares e visitantes, Creuza é o símbolo da resistência da mulher negra e guardiã dos saberes da floresta e do vasto antepassado cultural do seu povo. Mãe de 12 filhos, que ao longo dos anos lhe deram netos, bisnetos e tataranetos, Creuza ensina que ninguém deve desistir de seus sonhos e de suas conquistas.

O Dia Internacional da Mulher para ela é mais que uma data especial; é de fato o momento de reflexão sobre o verdadeiro papel da mulher na sociedade. “Temos que lutar pra vencer a dureza da vida. O reconhecimento desse território quilombola é exemplo de que só a luta, a força e a união compensam olhar o futuro de forma confiante. Eu criei meus filhos com muito amor e hoje recebo o que plantei. Sou paparicada por todos, sendo a tia Querida do Sucurijuquara”, conta, abrindo um largo sorriso.

A memória não falha - Vivendo num ambiente de grande tranquilidade, cercada de verde, uma casa confortável e um quintal limpo, onde as crianças podem correr e brincar, Creuza acorda bem cedo, toma café e segue ao seu passatempo predileto: jogar dominó na companhia de seus netos ou da vizinhança. Vez ou outra, ela reconta suas histórias. A memória não falha. Tia Querida se lembra dos avós, pais, tias e das muitas mulheres que perderam seus filhos ao encantamento da “Yara” ou “Mãe D’água”. “Era minha filha, a Yara vinha buscar a mãe e o bebê e levava para encantaria”, conta.

Sobre a infância, ela recorda da pobreza e da dificuldade em conseguir comida. O que chegava à mesa era peixe e caça pra uma grande quantidade de crianças. Os utensílios domésticos eram raros. A cuia servia de medição pras doses de farinha, muitas vezes emprestadas do vizinho e com pagamento confiado à próxima safra da mandioca. A lembrança da figura da avó Ofrazia é recorrente na memória da matriarca quilombola, que ainda se lembra das poucas casas construídas e de suas roupas que eram feitas com tecido de saco de açúcar que o pai conseguiu com muita dificuldade. “A mamãe deixava de molho até sair o cheiro e a tinta e depois fazia nossa roupa, que só cobria parte do corpo”, recorda.   

Escravos – Com o passar do tempo, o vilarejo ganhou dois novos moradores. Os escravos Geraldo e Isaias, que haviam fugido da senzala de uma fazenda localizada no município de Capanema, região Nordeste do Pará. Esse episódio não tem registro oficial, mas sabe-se que os escravos chegaram pelo rio e foram abrigados pelos moradores do povoado. Segundo Creuza Gomes Chaves, Geraldo e Isaias permaneceram em Sucurijuquara até o fim de suas vidas, deixando o legado de família e a marca do território.

Já vacinada contra Covid-19, a matriarca do povo quilombola, faz questão de agradecer ao prefeito Edmilson Rodrigues, o qual, ela preza e se recorda das vezes em que o ele esteve no vilarejo, ainda durante seu primeiro mandato, quando inaugurou uma ponte ligando o território à Baia do Sol. E para o prefeito, ela ainda faz outro pedido: o de resgatar o memorial do seu povo e das festas tradicionais de São João, de Pássaros Juninos, de Folia de Reis e do Carnaval. “Eu adoro boi-bumbá e carnaval. Venha me visitar Edmilson, estou esperando por você”, convida.

Quilomboas -  De acordo com Roberta Vale, presidente da Associação dos Remanescentes de Quilombolas do Território da Comunidade de Sucurijuquara, na ilha de Mosqueiro, o reconhecimento oficial do território pela Fundação Palmares, em 2014, foi um marco histórico. A condição abriu portas às políticas públicas ao povo preto. A vacinação contra a Covid-19, educação, intercâmbio e acesso ao crédito de fomento à agricultura familiar são exemplos da mudança.

Na comunidade residem atualmente 689 pessoas. Os parentes distantes foram localizados e orientados a fazer a imunização, que também serviu de reencontro. “Foi uma festa linda, e nós estamos muito gratos”, disse Roberta, que é professora de Língua Portuguesa e acabou de ser aprovada ao curso de mestrado na Universidade Federal do Pará pelo sistema de cotas. Ela vai defender a dissertação sobre a importância do uso das ervas medicinais no tratamento de doenças que afetam a vida moderna como diabetes e pressão alta.

Sobre o Dia Internacional da Mulher, a presidente diz ser uma data significativa, de continuação e busca de novos desafios, uma vez que na comunidade ainda existem necessidades sociais causadas pelo desemprego. A Prefeitura de Belém, segundo ela, tem se mostrado sensível ao território, dispondo a equipe da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) para vacinação. “Ainda estamos em quarentena pós-vacina, mas estamos bem e graças a Deus, imunizados contra a Covid-19”, disse.

Mulheres – A Programação do Dia Internacional da Mulher e do Março Lilás, de combate ao câncer do colo uterino, será marcada por palestras e debates sobre a importância da prevenção. Também haverá no dia 29, um evento especial sobre medicina ginecológica voltada às mulheres de comunidades tradicionais quilombolas. O território do Sucurijuquara foi um dos selecionados no Brasil para receber os coordenadores do projeto.

O território quilombola de Sucurijuquara é o único na jurisdição do município de Belém. Está localizado ao Norte da Ilha de Mosqueiro, entre o bairro de Carananduba e a Baía do Sol, com produção de mandioca, criação de suínos, peixe, galinha caipira e hortaliças. A população residente é de 689 indivíduos, sendo 143 crianças; 67 adolescentes ( 40 meninas e 27 meninos); 45 jovens, 351 adultos e 83 idosos. A cobertura vacinal contra a Covid-19 atingiu 90% da população.

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